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Conto: Sozinha em casa

O toque da campainha foi recebido com um sorriso. Manoela ergueu-se do sofá e correu para o interfone. A ligação vinha da portaria do prédio. O rapaz que viera entregar a sua pizza estava aguardando no térreo, disse o porteiro.
 
Ela tomou o elevador e desceu.
 
Voltou ao apartamento carregando aquela caixa de papelão como se fosse um filho. O aroma invadindo suas narinas e fazendo com que ela experimentasse uma sensação de bem-estar. Fora o fato de que ela estava, sim, faminta e ansiosa por aquelas fatias de pizza. Fatias que ela poderia aproveitar da primeira à última mordida. Sem olhares reprovadores ou comentários, quaisquer que fossem.
 
Rafael não estava em casa para controlá-la.
 
Não que isso fosse algo ruim. Ela amava o marido. No entanto, naquele exato momento em que entrou em casa, abriu a pizza e deixou o vapor subir e aquele aroma delicioso invadir o ambiente, ela sentiu que fazia tempo que não curtia a si mesma.
 
Pensou em abrir uma cerveja. No caminho, passou em frente ao som e selecionou sua coletânea favorita. Alicia, Adele, Amy, Joss e Katy estavam todas lá.
 
Voltou da cozinha e ao passar pelo aparelho girou o botão e aumentou o som.
 
Entre um gole e uma mordida pensou que um banho de banheiro seria perfeito para encerrar aquela noite em que ela ficara de dona do campinho. Na quinta fatia de pizza sentia-se mais que satisfeita, feliz e até um tanto culpada. Mandou mais um gole de cerveja e riu de si própria. Pegou o celular e ligou para Fabi – sua melhor amiga – e atirou-se no sofá.
 
– E aí guria, tudo bem? – Disse para o outro lado da linha.
 
– Simmmm! Tô sozinha. O Rafa teve que ir numa feira em Curitiba. Ele volta amanhã!
 
Ela aguardou o comentário da outra parte e caiu na gargalhada.
 
– Nem pensar! Acabei de comer meia pizza e depois vou pro banho! Acho que um banho de banheira com uma taça de espumante!
 
A troca de informações, também conhecida como fofoca, estava pela metade ainda quando ela percebeu que o celular mostrava uma segunda chamada.
 
– Fabi, posso te ligar outra hora? O Rafa tá me ligando!
 
As duas se despediram e ela atendeu a chamada em espera.
 
– Oi amor! Tudo bem?
 
Desligou o aparelho celular com um “eu te amo também” e decidiu ir para o banho. Alicia havia assumido os vocais na caixa de som e ela fechou os olhos e deixou o ritmo do soul a levar. Atirou o moletom no meio do corredor e até dançou e cantou junto com a música um pouquinho antes de deixar que a calça jeans escorregasse pelas pernas.
 
Manoela abriu a torneira e regulou a temperatura enquanto aguardava a banheira encher. Como quem se lembra de algo muito importante, ela ergueu o indicador e depois estalou os dedos.
 
Vestiu o roupão e voltou para a cozinha. Abriu uma espumante e pegou uma taça no armário.
 
O cenário agora era perfeito. Relax total.
 
“Ah, porque todo dia não é assim?” Se fez a pergunta mentalmente. Abriu os olhos como se reprendesse o próprio pensamento. Ela amava Rafael e ele a amava de volta, sentia que a casa ficava vazia a cada vez que ele era obrigado a ir numa dessas feiras da empresa. Porém, ao mesmo tempo, o sentimento de liberdade era bom demais.
 
Ela sentiu uma pontada de saudade, esticou a mão para o lado e pegou o celular que descansava ao lado da taça.
 
Escolheu uma daquelas carinhas (mais conhecidas como emoticons) e enviou para o marido. Não demorou muito e ela recebeu o “plim” com a resposta. Um emoticon sorridente seguido por um outro com cara de cansado. Abaixo, ele escrevera:
 
“Tô podre! A feira recém acabou… Vou direto pro hotel e acho que vou pedir a janta no quarto!”
 
Manoela riu. Tirou uma foto que mostrava a garrafa de espumante e apenas o final de suas pernas envolvidas em espuma de banho e água. Fez questão de mandar uma carinha sorridente junto a foto.
 
“Bah! Aí tu tá querendo me sacanear, né?” Ele brincou.
 
Despediram-se mais uma vez com juras de amor. Deixou o celular de lado, feliz, serviu mais uma taça e jogou a cabeça para trás no encosto da banheira.
 
Joss Stone substituíra Alicia na playlist. Manoela adormeceu por alguns instantes. Foi despertada por um barulho estranho. Como se um de seus livros de direito houvessem caído da prateleira do escritório.
 
Ela olhou para os lados e notou que o banheiro ficara às escuras.
 
Não levou um segundo, e a luz retornou. Piscando algumas vezes, como se testasse a lâmpada e então, estabilizasse.
 
O aparelho de som começou a tocar novamente. Uma coletânea dos irmãos Carpenters. Manoela estranhou. Nem ela e, muito menos, Rafael possuíam coletâneas do The Carpenters. Primeiro ela pensou que pudesse ser uma estação de rádio. Sentiu um calafrio ao lembrar que não havia a opção de rádio naquele aparelho em especial.
 
Ela saiu da banheira, vestiu o roupão e enrolou uma toalha no cabelo.
 
A voz doce de Karen Carpenter ecoando por todo o apartamento.
 
Manoela atravessou o corredor e parou em frente ao som. O visor digital mostrava claramente: Close to You – The Carpenters.
 
– Estranho… – Ela falou para si mesma.
 
Apertou o botão de OFF e desligou o aparelho. Voltou ao banheiro e juntou a garrafa – já pela metade – e a taça. Colocou o celular dentro de um dos bolsos do roupão.
 
O vazio dos cômodos do apartamento parecia menos amigáveis a ela naquele momento. Deixou a garrafa e a taça em cima da bancada da cozinha e fechou a janela que batia com o vento forte. Pingos d’água começavam a bater contra os telhados das casas e prédios e não demorou muito para o primeiro clarão de um relâmpago anunciar que uma tempestade estava se formando.
 
O segundo relâmpago levou a luz embora novamente.
 
“Merda!”
 
Ela puxou o celular do bolso e acendeu a lanterna do mesmo. Foi a procura das velas para iluminar a casa. A chuva parecia estar aumentando e a única coisa que iluminava o apartamento eram os relâmpagos seguidos do barulho do trovão.
 
Manoela não queria admitir para si mesma que aquele cenário estava deixando-a desconfortável, afinal ela já era uma mulher, ora bolas! Medo do escuro – ou de tempestade – é coisa de crianças. Quando finalmente encontrou as velas e uma caixa de fósforos as lâmpadas do apartamento piscaram algumas vezes e a luz voltou.
 
– Ufa… – Ela deixou escapar.
 
Desenrolou a toalha do cabelo e voltou até a cozinha para guardar as velas quando sentiu um arrepio correr por todo o seu corpo.
 
As gavetas e armários estavam todos abertos.
 
– Deixa de ser boba guria! Isso é tua imaginação… Tu tava procurando as velas no escuro. Abriu as gavetas e esqueceu de fechar. Pronto! – Ela olhou para a bancada.
 
– E, pra completar, acho que tu bebeu um pouquinho além da conta hoje!
 
Um novo relâmpago, seguido pelo barulho do trovão, iluminou a noite escura e Manoela chegou a dar um pulinho e recolher os braços junto ao peito. Puro reflexo. No caso, reflexo do medo que ela sentia crescer a cada novo instante.
 
Por via das dúvidas, passou pelas tomadas da televisão, computador, eletrodomésticos da cozinha e por fim, do aparelho de som da sala e tirou todos os plugues. Não queria que uma nova queda de luz fritasse os eletrônicos da casa. Ouviu uma nova batida de janela.
 
Parecia vir do escritório.
 
Pensou em ligar para Rafael, mas seu orgulho falou mais alto quando imaginou ele rindo do outro lado da linha só porque “ela estava com medo de ficar sozinha”.
 
Entrou no escritório e viu que a veneziana estava aberta. Levada pelo vento, batia contra a parte de fora do prédio. Ela correu até a janela e puxou a veneziana para dentro. Passou a tranca e fechou o vidro. Voltou até a porta e acionou o interruptor acendendo as luzes.
 
De alguma forma, acender as luzes a deixou mais tranquila.
 
Notou o relógio que ficava em cima da sua mesa no escritório, ao lado do computador. Ele marcava exatamente meia noite.
 
Manoela puxou novamente o celular e olhou para o visor. Este, marcava dez para as onze da noite. Ela foi até o relógio e acertou a hora. Deu um pulo e deixou escapar um grito quando um novo raio – esse bem mais perto – chegou a fazer tremer as janelas do apartamento.
 
A luz se foi e voltou em milésimos de segundos. Ela escutou uma música vindo da sala.
 
O fato de reconhecer a música só a deixou mais assustada. Karen Carpenter cantava junto a suave melodia e o piano de seu irmão Richard. O visor do aparelho de som mostrava: Close to You – The Carpenters.
 
– Não pode ser! – Ela verificou a tomada.
 
– Ai meu Deus… O que tá acontecendo aqui? – O desespero começava a tomar conta do tom de voz.
 
Ela desligou o som e engoliu o orgulho. Ligou para Rafael. O celular dele tocou, tocou e nada. Manoela mandou mensagem.
 
Nenhuma resposta.
 
– Droga, Rafa! Que tu tá fazendo que não me atende?
 
Ela tentou a amiga, Fabi, enquanto aguardava por um sinal de vida do marido, mas o celular da amiga também deu sinal e não foi atendido. Tentou mandar mensagem para a amiga, porém também não foi respondida.
 
Manoela olhou com calma para o visor do celular e então se deu conta de algo.
 
– Não tem sinal! – Falou baixinho.
 
Nisso, podia jurar que avistou um vulto negro passar pelo corredor e adentrar o quarto de casal.
 
Sentiu que a respiração começou a pesar e que algumas lágrimas estavam começando a se formar em seus olhos. Decidiu que iria bater na porta da vizinha, Dona Ilma. Não importava mais a hora. O medo já havia tomado conta da situação. Correu até a porta e quando tentou girar a chave a mesma não acompanhou o movimento da sua mão.
 
Mais parecia engessada na fechadura.
 
Manoela chacoalhou a maçaneta e forçou até onde suas forças a permitiram até que a chave se partiu.
 
– Puta que pariu! – Ela gritou, já em prantos.
 
“A sacada!” Pensou.
 
Ela correu, na direção contrária da porta, e abriu a sacada. Lutou contra o vento e a chuva que batiam contra ela e foi até o balcão da varanda. Olhou para os lados e procurou uma luz acesa entre as vizinhas.
 
Gritou por socorro até que notou que, a não ser pelas árvores que balançavam com o vento da tempestade, nada mais parecia se mexer. Arriscou-se a olhar para baixo e viu que não havia sequer um carro passando pela avenida. Manoela aguardou uns instantes e seu pavor só aumentou ao notar que as ruas estavam todas desertas.
 
Havia um prédio do outro lado da rua. Havia luz na janela que ficava na mesma altura que sua sacada.
 
Ela gritou naquela direção. Parecia que havia alguém naquela janela.
 
– Ei! Por favor, me ajuda! Acho que tem alguém na minha casa! Chama a polícia! Eu tô sem sinal de telefone! – Gritou entre as rajadas de vento e o barulho dos relâmpagos.
 
A silhueta que ela vira na janela em frente pareceu se aproximar da mesma. O vidro foi aberto. Manoela sentiu um alívio que logo foi tomado por um terror que a fez cambalear para trás.
 
Ela podia ver a si mesma do outro lado da rua. Como se fosse em um espelho.
 
A sua imagem refletida lançou um largo e malicioso sorriso para ela, fechou a janela e apagou a luz.
 
Totalmente apavorada e refém do medo, Manoela votou para dentro do apartamento e, por puro instinto, correu para a cozinha.
 
Uma faca de churrasco a aguardava na bancada. O utensílio tinha um ar convidativo e mórbido. Ela encarou a faca e escutou um barulho de água jorrando no banheiro. De posse da lâmina, caminhou pé ante pé até o banheiro e viu que a água que jorrava era a da banheira.
 
Água quente.
 
– Ah é? – Ela falou olhando fixamente para a banheira. – Nem pensar!
 
Entrou e fechou a torneira. Tomada por uma onda de coragem e raiva seguiu na direção do quarto. Tinha lágrimas escorrendo pela face quando acendeu as luzes do quarto e empunhou a faca em posição de ataque.
 
Nada.
 
Manoela olhou dentro dos armários, embaixo da cama, tirou o edredom e lençóis da cama.
 
Nada. Não havia ninguém além dela naquele apartamento.
 
Ela foi até a porta e trancou o quarto por dentro. Encolheu-se em um canto do quarto, com a faca na mão, e tentou ligar para Rafael mais uma vez. Agora o sinal era mais claro. A voz robótica da gravação da sua operadora de telefonia avisava que o seu aparelho se encontrava sem sinal para fazer ligações.
 
Manoela tentou usar o serviço de emergência. Discou o 191 da polícia, porém recebeu a mesma mensagem eletrônica.
 
– Isso não tá acontecendo… Isso não tá acontecendo… – Repetia para si mesma, como um mantra.
 
Ela deixou o celular escorregar pela palma da mão. O aparelho foi de encontro ao chão enquanto que ela, encolhida, como um animal acuado erguia a faca na altura dos olhos. Defendendo-se do nada.
 
A tempestade dava sinais de estar apaziguando. O que se ouvia agora, pela janela, era apenas uma leve garoa. O céu estava escuro, os relâmpagos haviam cessado.
 
Manoela ensaiou uma pequena oração. Uma que sua mãe havia lhe ensinado quando ela era pequena e ficava com medo dos monstros que habitavam o armário de seu quarto.
 
O viso do celular acendeu sua luz e o toque que anunciava a entrada de uma mensagem ecoou pelo quarto.
 
A ansiedade tomou conta dela ao sentir uma pontada de esperança.
 
– Será que o sinal voltou? – Falou ao pegar o aparelho.
 
Seus olhos tremeram e as lágrimas voltaram e ela começou a soluçar e chorar alto assim que terminou de ler a mensagem que dizia:
 
“Não se preocupe… Estamos junto contigo… Nós vamos cuidar de ti!”
 
– Me deixem em paz! – Ela gritou contra as paredes e atirou o celular para longe de si.
 
Os primeiros raios de sol substituíram as nuvens cinzas que tomaram conta dos céus da cidade na noite anterior e inundaram o quarto do casal Manoela e Rafael. Ela despertou com o toque do celular.
 
No visor, apreciam a foto e o nome do marido.
 
– Oi amor! Só pra te avisar que tô embarcando!
 
Ainda um tanto confusa, ela correu os olhos pelo quarto. Tudo no lugar. Ela mesma estava deitada na cama, com seu pijama de seda e enrolada no edredom. Buscou pela faca de churrasco e não viu sinal da mesma.
 
– Amor? Tá aí? – Falou o outro lado da linha.
 
– Oi… Sim, tô aqui! Te pego no aeroporto.
 
– Capaz! Deixa que eu pego um táxi.
 
– Não. Eu faço questão.
 
– Nossa! Tudo isso é saudade? – Ele riu.
 
– Aham! Até daqui a pouco… – Disse.
 
– Tá bom! Beijo.
 
– Beijo.
 
Ainda bastante confusa, Manoela procurou por roupas no armário e vestiu uma calça jeans e uma blusinha azul. Saiu do quarto, com medo do que pudesse encontrar, e foi até o banheiro. Arrumou os cabelos e maquiou-se. Nenhum sinal de absolutamente nada do que ela experimentara na noite anterior.
 
De súbito, lembrou-se de checar o armazenamento de mensagens do celular. Só para descobrir que não havia nada lá.
 
– Eu sonhei tudo aquilo?
 
Ela perguntou-se ao entrar na cozinha e deparar-se com uma caixa de papelão da Pizza Hut e uma garrafa de espumante pela metade. Manoela pegou sua bolsa e, por descargo de consciência, foi até o aparelho de som.
 
Apertou o botão de ON e a sua playlist estava lá. Alicia, Adele, Amy e Joss estavam lá. Manoela desligou o som e riu. Uma risada que era um misto de nervosismo e alívio.
 
Foi até a porta e girou a chave. A porta abriu normalmente.
 
– Meu Deus do céu… Que loucura! – Falou ao adentrar pelo corredor.
 
Dentro do apartamento, o aparelho de som ligou sozinho. O visor digital mostrava a música e o artista:
 
 
 
“Close to You – The Carpenters.”
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