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Conto: Proposta de Emprego

Falido, quebrado e ferrado.
 
Essas foram as primeiras coisas que passaram pela cabeça de Marcos ao receber a notícia de sua demissão. Depois, uma a uma, foram chegando as lembranças das obrigações. Aluguel, água, luz, gás, TV a cabo, telefone e internet. Tudo no mesmo pacote.
 
O pacote do fundo do poço.
 
Os papéis contendo todas aquelas babaquices burocráticas referentes a demissão o aguardavam bem à sua frente, na mesa do Seu Nogueira.
 
Pareciam encara-lo, aguardando pela sua assinatura, no pé da página.
 
O pensamento se voltava agora para Carla e Pedro. A esposa estava de licença maternidade do café onde trabalhava como gerente e o pequeno Pedro ainda não tinha forças para ficar em pé em seu berço. Berço que sequer estava pago. Restavam ainda nove suaves prestações. De onde viria o dinheiro para pagar? Ele olhou para os papéis a sua frente e não encontrou resposta.
 
– Desculpa, Marcos, sofremos um grande déficit com essa situação toda do país e fomos obrigados a diminuir nosso staff… Você é um ótimo funcionário, está a quanto tempo conosco? Dois anos? Pois é, sei que é terrível ter que fazer isso com você, mas não podemos arcar com o seu salário e nem podemos – constitucionalmente – baixá-lo para manter você na redação. Eu realmente sinto muito, mas não é nada pessoal!
 
Desculpa esfarrapada. Quer dizer que estou sendo demitido porque meu trabalho é muito bom? Mais pessoal do que isso é impossível! 
 
            – Eu sei que não é nada pessoal, senhor.
 
– Prometo te encaminhar uma carta de recomendação.
 
Marcos saiu da redação do jornal e sentou-se no banco da praça que ficava em frente ao enorme prédio que abrigava o editorial da Folha de S.Paulo.
 
Como encarar a esposa? Naquele momento, ela devia estar dando de mamar para Pedro. Marcos ia aparecer em casa, no meio da tarde, e dizer: “Querida, cheguei! Ah, quer saber as novas? Fui demitido porque sou um ótimo profissional!    
 
            Precisava de muita coragem.
 
Tudo bem, ainda tinha o FGTS que vinha junto com a demissão. Só que, com aquele pouco tempo de casa ele teria dinheiro… para o que? Para seis meses, se fizessem muitos, mas muitos cortes no orçamento?
 
Seis meses para manter a família. E depois?
 
Olhou para a esquina e avistou um boteco daqueles bem vagabundos. Ele sempre passava em frente do lugar, mas nunca imaginara que um dia cogitaria entrar ali.
 
Mas… Ele precisava de coragem… Coragem líquida. Coragem alcóolica.
 
Ainda tinha uma pequena esperança em seu livro. Quer dizer, seu esboço de livro. Um rascunho para falar a verdade. Uma ideia que pareceu ser boa o suficiente a ponto de se transformar em uma história digna de ser lida e apreciada por outras pessoas. Escrevera o primeiro capítulo com ímpeto, porém os afazeres da redação e o filho recém-nascido tomavam muito do seu tempo. Raramente lhe sobrava um espaço na agenda, e quando isso acontecia, ele estava sempre cansado demais para sentar-se em frente ao computador e escrever.
 
E quem ele estava tentando enganar? Do jeito que andava o mercado editorial e a crise, em termos de vendas, das livrarias do país, ninguém – em sã consciência – iria apostar em um escritor desconhecido. O cara que cobria, interinamente, as colunas de quem realmente importava quando estes saíam de férias.
 
Ninguém queria saber desse cara.
 
– E então, chefia? Que vai ser? – Falou o homem por trás do balcão.
 
– Uma dose, por favor. – Falou, afrouxando o nó da gravata, apontando para uma garrafa de cachaça na estante às costas do dono do bar.
 
 
 
Uma proposta.      
 
            Passaram-se uma, duas semanas e nada. Marcos fez uso de todos os seus contatos: amigos, parentes, ex-colegas e ex-professores de faculdade. A resposta – de quem se deu o trabalho de responder – foi, na maioria dos casos, de uma semelhança que chegava a dar raiva. Um pedido de desculpas mascarando um sentimento de pena que ele podia sentir vindo da outra parte. Ele escutou frases como: “Poxa, desculpa Marcão, mas no momento não estamos contratando…” e várias outras dentro desse mesmo quadro.
 
Todos os dias, Carla separava a seção de empregos nos classificados dos dois maiores jornais da cidade.
 
– Eu já procurei na internet, Carla! Já me inscrevi nessas agências de emprego onde você manda seu currículo e eles encaminham pra pessoas que possam se interessar. Não veio nenhuma resposta. Essa merda de crise nessa merda de país! Tá todo mundo demitindo todo mundo… Ninguém contratando!
 
– Faz pouco tempo que você se inscreveu! Você colocou sobre o seu livro no currículo?
 
Marcos fez que sim com a cabeça.
 
– Alguma coisa vai aparecer, mas nesse meio tempo, não custa dar uma olhada, não acha? – Carla falou.
 
– Hoje em dia não se procura mais emprego no jornal! – Marcos falou num tom agressivo e afastou os classificados separados em cima da mesa com desdém.
 
Carla pegou os papéis e colocou de volta na frente dele. Bateu com a mão em cima dos mesmos. Ela o pegou de surpresa. A esposa quase nunca era vista perdendo a calma e o sorriso tranquilo.
 
– Se ninguém mais olha, talvez tenha sobrado uma vaga pra você aqui! Não custa olhar! – Bateu o pé e falou com a voz firme.
 
“E como discutir essa lógica?” Ele pensou.
 
            Marcos juntou os jornais e num suspiro cansado passou a correr os olhos pelos anúncios e propostas de empregos que se ofereciam a ele. Carla saiu da cozinha satisfeita, já que, ao menos havia conseguido fazer com que ele desse uma olhada. No entanto, para Marcos a ironia de ter que procurar emprego nos classificados no jornal que o havia demitido era humilhante demais.
 
– Pro inferno com isso! – Afastou os papéis para longe de si mais uma vez.
 
Ele encarava o nada quando seu celular começou a tocar. Número estranho, mas o prefixo era de São Paulo. Aguardou e atendeu no terceiro toque.
 
– Sr. Marcos Silveira? – Uma voz de homem perguntava do outro lado da linha.
 
– O próprio. Quem é?
 
– Olá Sr. Marcos, tenho uma proposta de emprego para o senhor.
 
– Estou ouvindo…
 
– Bem, represento a agencia de talentos CDM. Gostamos muito das primeiras páginas do seu livro, muito criativo o seu trabalho! Parabéns!
 
– Obrigado, mas nunca ouvi falar de nenhuma agencia CDM…
 
– Sim, e gostaríamos que isso continuasse assim. Se é que você me entende?
 
– Não, desculpe, mas não entendo.
 
– Nosso trabalho é muito criterioso e não precisamos de publicidade. Somos nós que encontramos as pessoas que queremos trabalhando conosco e não o contrário. Bem, voltando a proposta… Você aceitaria tomar um café hoje à tardinha para discutirmos melhor?
 
Marcos sentia que a decisão correta naquele momento era simplesmente dizer não e nunca mais pensar naquele assunto. Entretanto, quando abriu a boca surpreendeu até a si mesmo. Quando terminou de falar procurava por um lápis para anotar o endereço do café e a hora.
 
– Bom… Não custa tentar… O que eu tenho a perder, afinal?
 
Ele terminou de anotar e deixou o lápis em cima da mesa, sobre o papel.
 
 
 
CDM.
 
           
 
            O sujeito já o aguardava no local. Marcos sentou-se à mesa e o homem estendeu a mão para cumprimentá-lo. Devia ter uns quarenta e poucos anos de idade, usava óculos de grau com lentes fundas e estava começando a ficar careca. Um sujeito baixo, mais baixo que ele, mas com feições agradáveis. Até então, nada ameaçador aos olhares atentos de Marcos.
 
Apresentou-se como Osvaldo e agradeceu a Marcos por ter ido se encontrar com ele. Já passava das sete da noite e o café, em uma bela esquina no bairro Jardins, encontrava-se quase vazio. Apenas algumas pessoas no lado de fora. Eles sentaram dentro, em uma mesa aos fundos.
 
– Do que é que estamos falando aqui? Qual é a proposta que você tem pra mim?
 
– Bem, antes de lhe dizer exatamente o que você faria, eu preciso de uma garantia…
 
O sujeito puxou de baixo da mesa uma pasta de couro. Destrancou a mesma e tirou uma folha com algumas diretrizes numeradas e uma linha em branco no rodapé onde dizia “assinatura”.
 
– Preciso que você assine isso para mim antes de começarmos nossa conversa.
 
– Por quê?
 
– Você vai entender depois de assinar. – O homenzinho falou e um sorriso enigmático brotou em seu rosto.
 
– Posso ao menos ler o que estou assinando?
 
– Mas é claro! – Ele alcançou a folha a Marcos e lhe passou junto uma caneta.  
 
            Ele leu atentamente cada parágrafo que se apresentava naquela folha. Cada diretriz parecia reforçar a anterior, mas o intuito era sempre o mesmo. A partir da sua assinatura, concordando com aqueles termos, toda e qualquer conversa envolvendo a CDM (e tudo relacionado a ela) era considerada sigilosa. As informações eram vetadas a qualquer outra pessoa além dele, Marcos.
 
– Por que tanto mistério? – Falou, ao terminar de ler.
 
– Assine e poderei te dizer. – Mais uma vez o homem abriu aquele seu sorriso de Gato de Cheshire (o gato risonho e listrado que explica a Alice as regras do País das Maravilhas).
 
Marcos pegou a caneta, olhou mais uma vez para o papel e não imaginou maior problema em manter o segredo. Assinou seu nome no rodapé. Pronto. Olhou para o homem sentado à sua frente e abriu os braços como se aguardasse as devidas explicações.
 
            – Ótimo! Bem, o seu trabalho será simples… Seu trabalho é escrever.
 
Ele arqueou as sobrancelhas, confuso. Lançou um olhar perdido e recebeu mais um daqueles sorrisos cheio de dentes do gato risonho.
 
– Escrever? Escrever o que?
 
– Ah, isso será fornecido por nós! Sabe a maioria desses escritores que você vê por aí? Ganhando milhões, fazendo fama, vendendo livros atrás de livros?
 
– Sim, consigo pensar em vários exemplos…
 
– E se eu te dissesse que… a maioria deles jamais existiu? – O sujeito falou num sussurro como se pretendesse criar um “q” de mistério.
 
– Do que você tá falando?
 
– Isso mesmo! A grande maioria dos escritores de sucesso não passa de falsos escritores… criamos o nome, a imagem e às vezes até usamos atores para representar os papéis dos mesmos. É o que fazemos na CDM. Criamos escritores e os vendemos para o mundo literário!
 
– Isso é alguma pegadinha? – Marcos olhou em volta à procura das câmeras e de pessoas rindo da sua cara.
 
– Nenhuma pegadinha. Você será pago para escrever um livro e depois ele será analisado pela nossa equipe e atribuído a um de nossos autores… – Ele abriu aspas ao pronunciar autores.
 
Marcos permanecia atônito. Abismado com o que aquele sujeitinho estava lhe dizendo. Ainda procurava pelas microfones e câmeras que estariam gravando uma espécie de brincadeira de mau gosto com ele. Olhou mais uma vez para os lados e então decidiu entrar na brincadeira.
 
– Ok. Eu topo. Mas, quanto que eu vou receber?
 
– Dez mil reais por semana… Mais 10% do total de vendas do livro que nosso autor, assinado por você, ganhar!
 
Ele engoliu em seco.
 
– Quanto? Você disse dez mil?
 
O homem balançou a cabeça de forma serena. Tranquilo.
 
–  Não é mais fácil encontrar um autor de verdade e pagar para ele?
 
– Pode acreditar quando digo que não! Fazemos isso há muito tempo e sempre obtivemos resultados fantásticos…
 
– Desculpe, é que não faz muito sentido pra mim.
 
– Entendo. Mas é só porque você ainda não conhece o mercado. Quando estiver trabalhando conosco tudo vai passar a fazer sentido, eu te garanto!
 
– E como foi que vocês me encontraram?
 
– Pela internet, Marcos. Nossa equipe monitora bons escritores a todo o momento. Faz um tempo que estamos acompanhando de perto o seu trabalho.
 
Marcos soltou um riso curto. Um tanto espantado com todo aquele clima de filme de espião.
 
– Agora, tem mais um detalhe. – Falou Osvaldo, o sujeitinho risonho.
 
– Qual?
 
– Para trabalhar para nós, você deve vir a nossa redação e só poderá escrever quando estiver lá. Seu horário de trabalho é todo seu… Não exigimos presença integral, somente cobramos os prazos estabelecidos e combinados para cada trabalho que contratamos.
 
– Parece muito bom pra ser verdade…
 
– Pode acreditar que, nesse caso, é bom demais e é a mais pura verdade! Ah, e recebi instruções de lhe dizer que, se o seu trabalho for aprovado, no final do ano vamos publicar seu livro… Pense nisso como um bônus!
 
– E quando eu começo? – Marcos se pegou sorrindo pela primeira vez desde que os dois homens sentaram na mesa do café.
 
– Quando quiser. Quer conhecer a redação? – Osvaldo sorriu e estendeu a mão.
 
Marcos apertou a mão estendida e a balançou. O contrato estava fechado e ele havia conseguido, o que na sua cabeça, mais parecia um emprego dos sonhos. Mal podia esperar para contar para Carla quando se deu conta de que havia assinado um contrato que o proibia de comentar qualquer coisa relacionada a CDM.
 
“Bem, ela não precisa saber de tudo o que vou fazer…”
 
 
 
A história do jovem corretor.
 
 
 
“Ronaldo caminhava pelas ruas desertas no meio da noite. Trazia consigo uma pasta e o paletó jogado sobre os ombros. Seu rosto traduzia todo o seu sentimento. Era o fim da linha, o beco sem saída. No bolso o tilintar das chaves daquele último apartamento que ele havia mostrado a um casal naquela tarde. Havia esquecido de devolver a chave ao chefe quando o mesmo lhe informou que a imobiliária não iria mais contar com seus serviços. Um pensamento começou a se formar na mente do jovem corretor. Foi ao apartamento, entrou, com as chaves que trazia no bolso. Atravessou a sala escura e abriu a porta de vidro que dava para a varanda. Olhou pela sacada o movimento da cidade a dez andares de altura. Ainda havia uma saída para ele…”
 
 
 
Ao final daquele mês (prazo estabelecido pelos chefes), Marcos entregou a história do jovem corretor. Enviou por e-mail o arquivo PDF da mesma. Um mês de trabalho na redação da CDM e ele achara um tanto estranho não ter visto nem ter sido apresentado aos chefes, mas, recebera diversos elogios no e-mail de resposta.
 
Osvaldo mantinha os contatos entre ele e os chefes e pagava, em dinheiro, ao final de cada semana o ordenado prometido.
 
Naquela sexta-feira Marcos saiu de sua sala – um pequeno cubículo, na verdade – dentro da redação da CDM e, como em todos os outros dias que estivera ali trabalhando não conversou com ninguém, não trocou olhares com ninguém e saiu pela porta que dava para a recepção da empresa. Ali ficava uma moça que se prestava a dar apenas “bom dia, boa noite ou boa tarde” dependendo da hora em que ele chegasse.
 
Apesar de estranho, o movimento era intenso na redação. Localizada no vigésimo quinto andar do moderno e luxuoso prédio número 1408 da Av. Paulista.
 
O local ficava aberto 24 horas e homens e mulheres entravam e saíam a todo o momento de seus cubículos. Marcos chegou a contar cinquenta em uma noite antes de deixar o trabalho. Ele estranhou a falta de comunicação entre colegas de trabalho, mas Osvaldo logo explicou que aquilo também fazia parte do contrato.
 
– Não se comenta nada da CDM. Nem mesmo com as pessoas que trabalham aqui… Nosso trabalho é feito nas sombras e é vetada a troca de informações entre nossos empregados!
 
Tudo bem. Marcos podia lidar com aquilo. Por mais estranho que pudesse parecer.
 
De qualquer forma, o salário era ótimo, ele recebia por semana e ainda tinha prometido um bônus e 10% das vendas liquidas do “autor” para o qual ele escrevia histórias. Carla estava tranquila, Pedro não precisara deixar a escolinha particular e na única vez em que ela perguntou a Marcos com o que ele estava trabalhando a resposta foi enfática e convencedora.
 
– Faço correções e editoração de obras literárias!
 
Tudo no seu lugar. Tudo corria bem. Até aquela manhã de domingo.
 
Ele abrira a Folha com satisfação naquele domingo de manhã. Já havia passado mais de três meses desde a sua demissão e o novo emprego, Marcos pensou que ter sido mandado embora do jornal era a melhor coisa que havia ocorrido em sua vida.
 
Carla já comentava até em começar a guardar dinheiro para trocar de apartamento e, em seus cálculos, daria até para trocar o carro velho por um novinho em folha. Marcos experimentava um sucesso que até então nunca sentira. Era bem quisto (ao menos era o que Osvaldo lhe passava) pelos chefes da CDM, tinha um bom dinheiro entrando toda a semana e a perspectiva de poder lançar seu próprio livro no final do ano.
 
Ele sorriu para as quatro paredes da cozinha enquanto aguardava a cafeteira terminar de passar o café. Mastigava uns biscoitos de maisena e ia passando as páginas do jornal com prazer.
 
Todavia, seu sorriso deformou-se em seu rosto quando leu uma manchete. Ele se deixou curvar sobre o jornal e releu o título da matéria.
 
– Jovem corretor se joga do décimo andar de prédio em Santo André! – Falou baixinho para si mesmo.
 
Engoliu em seco e passou a ler toda a matéria. Quando terminou, seu rosto estava branco como cera. A cafeteira roncava com o café pronto. Marcos parecia petrificado. A matéria do jornal retratava exatamente a história que ele havia preparado para a CDM.
 
– Que porra é essa? – Disse ao ler o texto pela segunda vez.
 
A vontade era de correr até a redação e descobrir que diabos estava acontecendo. Não poderia ter sido uma simples coincidência. A história era a mesma, o nome do corretor (fornecido pelos chefes) era o mesmo.
 
Carla havia levado Pedro a casa de seus pais e ele ficara em casa para trabalhar em seu livro. Porém, após ler a manchete do jornal, Marcos passou o dia todo tentando entender o que estava acontecendo. Enfim, passou um e-mail para Osvaldo com cópia para os chefes. Aguardou o restante do dia e não recebeu resposta alguma.
 
Seu pânico aumentou quando ligou para amigos da Folha de S. Paulo e confirmou toda a história. A história do pobre homem que se atirou do décimo andar de um apartamento que ele havia recém mostrado a um jovem casal. Ele havia sido demitido da imobiliária e não tivera coragem de voltar para casa e encarar a mulher e as duas filhas.
 
“Meu Deus do céu!”
 
 
 
Contra a parede.
 
 
 
             Marcos desceu do carro e pisava forte ao caminhar de encontro com o prédio da CDM. Trazia em uma das mãos o recorte da matéria sobre o pobre corretor que cometera suicídio.
 
“Quem são essas pessoas? O que diabos tá acontecendo?” – Ele se perguntava durante todo o trajeto que o levou de sua casa ao vigésimo quinto andar do número 1408 da Paulista.
 
Entrou ignorando o “bom dia” vindo da secretária e passou pela porta que dava acesso aos cubículos. Olhou por cima, mais da metade estavam vazios, mas era possível escutar o barulho de dedos digitando em outros. Ele bateu com a mão fechada contra a porta provocando um estrondo. O barulho do teclar parou.
 
– Prestem atenção! – Gritou. – A gente tá sendo enganado!
 
Algumas cabeças se ergueram e ele pode ver os rostos dos colegas.
 
– Isso aqui – ele abriu os braços, contemplando o andar inteiro –, tudo isso aqui não passa de uma enganação! – Marcos erguei o jornal com a matéria. – Eu escrevi essa história! Escrevi essa história que os tais chefes pediram… E olha o que aconteceu! O cara se matou de verdade! O cara se matou! – Ele falava com os dentes cerrados.
 
Sentiu o toque leve de uma mão em seu ombro. Olhou para trás e Osvaldo lhe encarava de volta. Seu sorriso de Gato de Chershise permanecia intacto.
 
– O que diabo se passa aqui? E não me vem com essa balela de “autores” fictícios e o escambau! Quero saber por que o cara que me mandaram escrever uma história – o cara que eu pensei que era só um personagem – foi encontrado morto exatamente da forma como eu descrevi! Quem são vocês? O que eu tô fazendo aqui?
 
– Calma Marcos… Não precisa levantar a voz. E vocês – o sujeitinho voltou o olhar para as outras pessoas na sala – voltem ao trabalho! Marcos, se importa de passar comigo a minha sala?
 
Os dois entraram e assim que Osvaldo sentou-se e ofereceu uma cadeira, Marcos negou e bateu com a matéria de jornal na mesa.
 
– O que significa isso? – Falou. Encarando o homem.
 
– Uma incrível coincidência.
 
– Vai pro inferno! Acha que eu sou idiota? Quero uma explicação!
 
– A única explicação é que isso foi uma terrível coincidência Marcos…
 
Marcos riu ironicamente.
 
– Não, não… não pode ser.., eu não sei como vocês tão fazendo isso, mas isso tem que parar!
 
O sujeito manteve a mesma postura. Nada parecia tira-lo de sua postura relaxada. Ele até sorria para Marcos.
 
– Marcos… Tenho duas opções para você.
 
– Ah é? E qual são elas?
 
– A primeira: a gente finge que todo esse chilique nunca aconteceu e você volta para a sua mesa e faz o seu trabalho…
 
– E a segunda?
 
– Infelizmente se você continuar insistindo nessa história eu vou ser obrigado a ter que te desligar da companhia. O que é uma pena… estávamos preparando o seu quadro de funcionário do mês…
 
– Uma pinoia! Funcionário do mês? Porque? Porque eu matei um cara? Ou melhor, eu escrevi a história e vocês mataram o cara? Foi isso que aconteceu? Fazem isso pra promover os tais autores?
 
Osvaldo abriu a boca para falar, mas foi interrompido.
 
– Não quero saber! Pode ficar com essa merda de emprego! Eu não vou ser cúmplice dessa sujeira. – Ele virou-se e caminhou para fora da sala, batendo a porta na cara do homem.
 
Quando chegou na sala dos cubículos, dois homens vestindo ternos escuros o aguardavam. Eles apenas tinham crachás onde se lia: CDM. Pegaram um em cada braço de Marcos e o escoltaram até a saída.
 
– Me larga seus animais! Não precisa me mostrar a saída!
 
Marcos deixou o prédio e entrou em seu carro. A primeira coisa que faria seria ir direto até a redação da Folha e expor todo o esquema daquela maldita empresa. Que se fodesse todo o contrato que ele havia assinado. Eles que tentassem processá-lo. A verdade ia ser exposta e ele teria o apoio popular.
 
Do alto do vigésimo quinto andar, em um dos cubículos da empresa CDM uma mulher digitava rapidamente pelo teclado do seu computador:
 
“O escritor pisava fundo em seu carro e trocava as marchas como se estivesse em uma pista de corrida. O pequeno carro voava pelo asfalto das ruas centrais de São Paulo. Em um cruzamento, ele não notou que o sinal havia ficado vermelho e, ao passar foi obrigado a desviar de uma mãe que atravessava a faixa de pedestres com seu bebê de colo. Ele conseguiu desviar, porém, infelizmente acabou perdendo o controle do carro e bateu em cheio em um poste na calçada. O escritor morreu na hora…”
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